lundi 12 avril 2021

mercredi 7 avril 2021

Alguma vez os longos e estéreis dias terminariam?

Se calhar só quando a morte viesse!

Assim devaneava: e se a morte for um bluff? Um truque da vida?

O dia começara às três da manhã. Sempre acordara cedo, mas agora, era a Mulher Insone.

Tinha preguiça, por antecipação, do longo dia que se seguiria: nenhum compromisso, nenhum trabalho, nenhum dever. Nem alegria, nem tristeza em demasia.

Sentou-se na poltrona, de roupão velho e puído, já que também nunca recebia visitas. Mas ficar assim tão mal-vestida era ideia que não lhe agradava, então, levantou-se e foi vestir uma blusa de seda azul elétrico e umas calças de ganga. A sua figura realmente melhorara.

Sentou-se, de novo, na poltrona.

Ela não era nem bonita, nem feia. Ela era óbvia, banal. Ela não tinha problemas de dinheiro.

E tinha telefone.

Hoje, telefonaria a quem?

Ultimamente, sempre que telefonava tinha a nítida impressão  de que estava  importunando e depois também havia a falta de assunto. Todos estavam com as suas vidas suspensas. O único assunto era a pandemia, a perda de emprego, a falta de perspetivas, a desesperança que crescia com os sucessivos confinamentos.

E se alguém lhe telefonasse?

Teria que levantar-se da poltrona, mas decerto não seria para a convidarem a ir tomar um chá à Confeitaria Nacional.

Hoje, não estava para conversas pessoais. Não atenderia. E além do mais, o telefone não tocava há semanas.

Ainda não voltara a ver-se ao espelho. Raramente, se via ao espelho. Como se tivesse medo de se ficar a conhecer demais. E ela comia muito. Engordara. A sua gordura era pálida e flácida.

Resolveu, para se ocupar um pouco, arrumar as gavetas da cómoda dos sutiãs e cuequinhas. Sentia-se bem nessa tarefa de arrumadora de gavetas. Lamentava não ser casada – se o fosse, se ocuparia também ordenando as gravatas do marido.

Ela sentia-se só. Era uma criatura inodora e insignificante. Não tinha nem marido, nem filho. Apenas tinha o gato.

Viu, com grande satisfação, que já era quase de manhã. Como o tempo afinal passava depressa! Que dádiva divina  essa passagem do tempo, arrumando gavetas.

Estava na hora de aquecer os restos do jantar da véspera. O silêncio era pesado. Ouvia-se apenas o barulho da frigideira, onde fritavam os pedaços de frango sobrantes. Pôs-se a comer. Nada de sobremesa. Não podia continuar a engordar daquela maneira. Havia milhões de pessoas com fome. Era obsceno comer sem sentir mal-estar.

Depois, ela ligou a televisão. Lixo.  Pena não fumar, seria esta a hora de acender um cigarro. Nem olhava para o ecrã. Desligou-a, aliviada.

Resolveu recortar revistas velhas para se entreter. Há muito tempo que não o fazia. Dariam umas belas colagens. Era só puxar um pouco pela imaginação.

Em seguida, ferveu água para fazer chá. Colocava-o na garrafa térmica e bebê-lo-ia, ao longo do dia. O chá não era engordativo, claro que não!

O telefone continuava sem tocar. Se ao menos tivesse colegas de trabalho, mas nem sequer já tinha trabalho!

Bebeu uma taça de chá fervente, mastigando pequenas bolachas de água e sal que lhe arranhavam as gengivas sensíveis. Melhorariam com um pouco de marmelada, mas é claro, a marmelada engordava!

Quando ia comer a terceira bolacha – ela costumava contar as coisas por três, por uma espécie de mania de ordem. Aconteceu!

Ouviu o telefone tocar.

Cuspiu, de imediato,  os pedaços de bolacha e para não dar a entender que era uma desesperada, ainda o deixou tocar meia dúzia de vezes, e cada trino era uma dor aguda no coração, pois a pessoa poderia desligar pensando que não estava ninguém em casa!

A esse pensamento precipitou-se  e disse, com voz solta :

Alô?

Boa tarde. Por favor, gostaria de falar – disse a voz feminina de uma octogenária, a avaliar pela rouquidão arrastada – com a Lurdes. Sou a Ana, amiga dela de longa data.

Minha senhora, lamento, mas nesta casa não vive ninguém com esse nome.

Mas essa não é a Travessa da Fonte?

É sim, mas que número de telefone a senhora marcou? Sim, esse é o meu número, mas garanto-lhe que não mora, nem nunca morou aqui nenhuma Lurdes.

Mas como não?! Se eu sempre falei com a minha amiga Lurdes neste número! Peça à Lurdes que venha atender, por favor!

Dona Ana tinha uma voz de comando intimidante.

Aqui não mora nenhuma Lurdes, minha senhora, já lho disse. Só moro eu.

E como é o seu nome?

O meu nome é Margarida…

É filha ou neta da Lurdes?

Ah, ah, ah a senhora tem sentido de humor! Dona Ana, creio que é tempo de desligar porque a esta hora o meu chá já deve estar gelado e eu gosto de o beber fervente.

Chá às três da tarde? Pelos vistos também não sabe a que horas se toma o chá!

O chá é porque não tenho mais nada para fazer, mas agora, peço-lhe que desligue o telefone.

A minha única intenção era falar com a Lurdes para convidá-la a vir tomar o chá das cinco, como já podemos sair de casa. Mas… ah! Tive uma ideia. Já que a Lurdes não está, porque não vem a menina? Que acha? Que acha de vir distrair uma senhora de uma certa idade?

Minha senhora, não a conheço. Acho que não…

Mas como não?!

Não e se me permite, quem vai desligar o telefone sou eu, com licença.

Ela sentiu-se aliviada, por um instante,  mas logo estremeceu: e se o demo da velha tornasse a ligar para falar com a desgraçada Lurdes? Tinha de tirar, imediatamente, o telefone da ficha.

Sim. O chá ficara gelado. A tarde estava arruinada. O dia estragado.

Sentia-se infeliz. Então em vez de beber o chá comeu um biscoito com cobertura de chocolate.

Depois, eram já quatro horas. Depois, cinco, seis , sete… Oito: hora de jantar!

Ainda restavam pedaços do frango de ontem e ela aprendera, com a avó, a nunca desperdiçar comida, muito por causa dos milhões de pessoas que morrem à fome.

Nove horas: já se podia deitar.

Escovou os dentes,  durante três minutos, pensativa. Vestiu uma velha T-shirt de algodão, meio descozida na zona dos sovacos, e entrou na cama, onde já dormia o gato faz tempo.

Os olhos teimavam em não fechar.

Ela era a Mulher Insone. Foi então que pensou nos comprimidos contra a insónia. Uma pilulazinha era o suficiente para ter um sono tranquilo. Duas iam fazer mais efeito. Três, era garantido que dormiria mesmo!

Um dia a menos. Um bom soninho era só o que precisava. Amanhã seria um novo dia e já nem se lembrava qual …

lundi 5 avril 2021


 

 

A história começa assim:

Saiu de casa para ir ao salão de beleza cortar o cabelo. O Clóvis a atenderia.

Olhou o relógio. Eram três da tarde. E de repente, lembrou-se que teria de fazer as unhas dos pés e das mãos e quem sabe uma massagem também.

Apanharia um táxi ou iria a pé?

Apanhar um táxi poderia revelar-se perigoso. Havia que desinfetar todas as superfícies primeiro. Onde colocaria as mãos? E depois teria de desinfetar muito bem as mãos.

Iria a pé. Era mais seguro. Até porque não tinha, na carteira, dinheiro, apenas o cartão de débito e motorista de táxi não costuma aceitar essa forma de pagamento.

Ela bem sabia que devia ter sempre dinheiro, na carteira, porque nunca se deve andar sem nenhum dinheiro.

Era o que  sempre ouvira da boca da avó, mulher precavida. Ocorreu-lhe ir levantar dinheiro ao distribuidor automático, mas agora estava cansada e já não queria.

Era uma tarde de abril e o ar fresco da manhã trazia a promessa de chuva. Ainda assim, ela achou que era maravilhoso e inusitado ficar de pé, na rua, ao vento que revolteava os seus cabelos, que o Clóvis – mãos de tesoura – cortaria muito curtinhos, à garçonete.

Não se lembrava quando fora a última vez que saíra sozinha para o meio da manada humana. Este momento era único e ela teria ainda, durante a vida outros milhares de momentos únicos. Assim se tranquilizava.

Pensou: “Tenho dois filhos, uma família, não estou sozinha, estou segura”.

Nutria-se das vagas e grandes esperanças que depositava em seus filhos. Eles a sustentavam de pé. E depois, não pensava em mais nada.

Estava na rua exposta. Completamente exposta a pessoas de toda a espécie. Ela – os outros. Era um binómio comprometedor. Ela estava meio atarantada. Há meses que praticamente não andava na rua. Ia de carro de porta a porta.

No passeio, ouviu duas mulheres comentar: “ O marido foi despedido. Quem não tem bom emprego, depois de certa idade…”

Não ouvira o fim da frase, mas adivinhava-o. Não. A vida não era bonita nesta época que se vivia. Se é que algum dia o fora, em outras épocas…

Ela resolveu, deliberadamente, deixar de pensar. Pensamento era visão e compreensão e ela não queria mais nem ver, nem compreender. Se tivesse que ter pensamentos, que fossem os mais tolos. Assim: “O que preparar para o jantar? Vai chover ou não? Devia ter trazido o guarda-chuva!”

Todos os dias fazia uma lista das coisas que precisava fazer – era desse modo que se ligava ao Tempo vazio e estéril. Simplesmente ela não tinha mais o que fazer.

A avó dizia-lhe, quando ela era apenas uma criança :” Tens de te esforçar muito para vencer na vida”. Seria ela, por acaso, uma “vencedora”?

Se vencer fosse estar, em plena tarde, no meio da rua, lutando contra os seus medos, tendo sobrevivido a uma doença letal e a uma pandemia, isso faria dela uma vencedora? interrogava-se ela.

Que paciência tinha ela que ter com os outros e consigo mesma. Que paciência tinha que ter para salvar a sua própria pequena vida, a sua miserável pele!

Quis pensar em outra coisa e esquecer o difícil momento. Então, ocorreu-lhe que sentia sede. Sentia a boca inteiramente seca e a garganta em fogo. E não tinha água! Esquecera a água!

E não tinha dinheiro, na carteira, para comprar uma garrafa de água, num café, ao postigo!

Que raiva ! Veio-lhe, inesperadamente, uma vontade assassina: a de matar toda a gente que cruzava na rua. Ou de dar pontapés nas coisas que eram obstáculos, na sua marcha lenta e desesperada.

A magia essencial de viver – onde estava agora?

Em que canto do mundo em confinamento?

Silêncio!

Parada na rua. 

Ela não tinha dinheiro na carteira, mas como? Se a mola do mundo era o dinheiro!

No passeio, andrajoso, um homem, já velho, pedia esmola, sentado no chão, com o seu cão, ali deitado, ao seu lado.

Ela não era dos que passam fome e frio e mendigam para sobreviver. Mas sabia dessas multidões que engrossavam agora a cada dia, e sabia como os demais viravam a cara e desviavam o olhar.

Todos sabem, mas todos fingem que não sabem – pensava ela, porque se não fingirem, sentem um mal-estar opressivo que os impede de viver. Os sensíveis, claro está. Os outros todos não sentem nada certamente ou apenas nojo e repúdio. Nem têm capacidade para compreender o que é a pobreza! Nem têm capacidade para entender nada.

E de repente, assolou-a mais esse pensamento. Na verdade, também ela era uma mendiga!

Nunca pedira esmola, mas mendigara o amor, e mendigava agora que ainda a achassem bonita e desejável.

“Sou uma pobre coitada, a única diferença entre mim e um mendigo é que sou uma remediada. Nem pobre, nem rica. Mas poderia também sentar-me no chão, ao seu lado, e mendigar, não apenas dinheiro!”

Ela deixara, há muito, de ser a mesma pessoa.

No último ano, carregara o corpo doente e uma ferida, feita com lâmina de cortar, que a tornara numa deficiente. Um dos seus elementos de atração havia-lhe sido subtraído e para ela, já nada voltaria ao normal, mesmo quando voltasse – a cicatriz era indelével.

Ela estava precisando agora de um novo destino para a extrair do sono automático em que vivia.

Finalmente, pensou, antes de se sentar, na cadeira reservada à lavagem do cabelo, que tudo na sua vida, desde que nascera, parecia macio, mas a verdade é que tudo era duro e áspero!

dimanche 4 avril 2021


 Collage

 

Parece que vai chover…

Esta noite, foi outra vez ponto e vírgula – a insónia vivida.

No jardim, cresce a hera enquanto eu não durmo.

Sopra o vento.

Pergunto-me se deixarei os meus cabelos crescerem até ao chão onde cresce a hera.

Todos os dias, espero pela noite, como quem espera por um desvio, no caminho, para poder esgueirar-se. Mas quando vem a noite, percebo, com horror, que é inútil: não alcanço fechar os olhos, no grande silêncio escuro.

Podia até ser manchete nos jornais: A MULHER INSONE. A prisão dos dias intermináveis dos quais não alcança fugir.

O silêncio da noite virou já crispação.

Viro o meu rosto para o silêncio implacável. Sei que há uma hora incógnita em que, fatalmente, descerá o quebranto da vigília insone. Não me desespero à toa!

Da minha insónia, olho pela janela do quarto, às três da madrugada.

Parece que vai chover…

Respiro fundo e ganho uma lucidez que me torna fabulosa, ainda que inútil!

Um instante de embriaguez – os pés deixam de tocar o chão! Estarei a levitar?

Nestes últimos meses, ganhei maus hábitos de vida: de manhã durmo e de noite, acordo.

A erosão vai-me desnudando até ao osso.

A solidão faz de mim uma assexuada. Um ser abstrato e lento – uma piada estritamente perfeita!

Na minha vida quase já não existe quotidiano, somente insónia.

A época que estamos atravessando é fantástica – vivemos numa eternidade de lentidão e de silêncio inusitados que nos pode, dizem os peritos, endoidecer.

Parece que vai chover…

Estou sem resistência física, meio mole e gelatinosa, como uma alforreca viscosa, cuspida pelo mar.

Estou sobrando nesta aridez silenciosa onde não consigo fechar os olhos.

A insónia crónica deixa-me, penosamente, desorientada e entorpecida, no Tempo e no Espaço.

Sou uma viajante espacial, à espera, lunática e fantasmagórica.

Estou suspensa na estratosfera até à última ordem.

vendredi 2 avril 2021

TRÍPTICO

 

« La lune est éclatante de silence

Paul Éluard

 

 

A noite é uma possibilidade excepcional – a noite fechada de um verão escaldante, ainda mais!

Aguardo em silêncio.

Aos poucos, vou-me habituando ao escuro e, aos poucos, vou enxergando uma claridade, no silêncio da noite.

A lua é cheia.

Ao longe, oiço a beleza e o perigo do mar, ao qual já me quis atirar, sem roupa, para não mais voltar.

Sopra um vento de noroeste.

Imagino um farol e inicio uma viagem fora do tempo.

Preencho a ausência com o culto do Tédio. Que horas são aí onde vives, nessa ilha inalcançável ?

Fatalmente, iremos morrer um dia! talvez dentro de poucos meses, talvez sete anos – fora isto, não há certezas de nada, na encruzilhada do Grande Caminho.

E, de repente, oiço outra vez o mar :

a revoltosa rebentação do Atlântico enche-me os ouvidos e o seu cheiro salgado fecunda-me as narinas.

Esta é uma noite de lua cheia.

E a minha única ambição é voltar a fruir o proíbido, pois o proíbido, já se sabe, é sempre o melhor !

 

 

 

«Não há crime que não tenhamos cometido em pensamento»

Goëthe

 

 

 

Dêem-me de volta o Desejo – um fio de desejo que seja ! Essa mola da minha vida animalesca !

Sopra, no ar, uma transparência cálida que apaga toda a minha dor de viver na Ausência.

Sinto-me independente e soberana.

É uma sensação de profundo e secreto júbilo - como se fosse dona do meu próximo segundo de vida e de todos os que se lhe seguem.

O ar clareia. Começa a raiar o dia. Um dia bruto. Um dia diário. Um dia desolado. Um dia votado ao Tédio. Um dia de Ausência.

Os postes de iluminação não foram ainda apagados e projetam uma luz empalidecida.

O bocejo acontece.

A minha vida hodierna é tão somente esperar, apodrecendo.

A manhã ficará límpida e eu nem sei onde estive esta noite. Dêem-me algum tempo, um mínimo de tempo para me aclimatar.

Olho, em meu redor, e só vejo o mar muito salgado - o mar azul e, na sua ourela, as casas brancas dos pescadores. Imagino os peixes de olhos gordos e vítreos, em salmoura, dentro desse mar temperado.

E as nuvens, sobre o mar, são amarelas ou douradas ao menos.

Apetece-me agora tomar um banho de mar azul !

Eu ainda gosto de banhos de mar salgado – a mulher que sou, só deseja Alegria ! não se quer curvar defronte da morte que pode vir de visita, a qualquer momento.

 

 

À noite, derrama-se novamente o vasto silêncio, pelas ruas do casario branco despovoado.

Tento, em vão, disfarçar a opressão que me espreita, num silêncio tão grande quanto o desespero, quando penso no improvável dia de amanhã.

Como ultrapassar essa ansiedade latente que arrasta o corpo no seu rumor ? como fugir ao alcance desse silêncio, oco de palavras, insone e imóvel ?

É inútil tentar agora povoar esse vazio tenebroso do silêncio. Inútil pensar numa porta que abra, numa tábua do soalho que ranja, numa persiana que bata com o vento.

O silêncio continua vazio e sem promessa.

Há uma descontinuidade que não é mais do que a negação da vida e este silêncio não deixa marcas, nem provas ! quem ouve o silêncio, de noite, não sabe sequer dizer como o sentiu !

A noite desce.

As pedras do chão brilham, nas vielas e nos becos, já vazios, e apagam-se as luzes mais distantes.

Cai um silêncio, ainda mais fundo, nas casas brancas e ajeitam-se as folhas nas árvores, quando some a luz das lâmpadas dos candeeiros.

Ouvem-se alguns passos tardios ressoar nas pedras da calçada. Poucos.

A lua vai alta e o silêncio ainda maior aparece.

Pensa-se no dia que passou com as suas pequenas alegrias mansas e os seus  cansaços vários e indefiníveis.

As crianças adormecem. Fecham-se as últimas portas que dão para a rua. E instala-se o silêncio total, na escuridão. E os corpos deixam de lutar.

Entra-se, neste silêncio, como um fantasma invisível na escuridão, vivendo na orla da morte.

Sente-se mais premente a súbita ausência – uma ausência quase palpável, um torpor indecifrável !

A dor cessa de latejar.

Sou apenas um corpo, uma pessoa, uma mulher, uma atenção mergulhados no silêncio.  Podia bem ser uma pedra ou um pingo de chuva, não fosse o calor do estar ainda viva. Nada mais que isso, viva ! e apenas viva, de forma mansa e silenciosa.

Engoli, faz tempo, a loucura que me alucinava calmamente e mantenho-me, sem uma única palavra a dizer, – em mutismo, na vasta inconsciência do mundo.

Ainda sucumbo, amiúde, à melancolia dos fins de tardes tristes, sem nada que me conecte ao mundo. Mas o futuro é meu, enquanto eu viver calada !

 

 

 

«La chair est triste hélas, et j’ai lu tous les livres »

Stéphane Mallarmé

 

 

 

Escrevo por impulso.

Sinto, em mim, nascer a inspiração como água que fura as paredes e sucumbo à rebentação, na escuridão da grande noite sem lua.

Literatura ou lixo, isto que escrevo ? – pouco importa !

Há um enigma por descortinar e eu corro atrás e treino os meus olhos cegos, no esforço de o poder desvendar.

Serei, certamente, sujeita a juízos neste mundo cão – não me julgo totalmente boba. Sei de algumas verdades e de algumas realidades inventadas.

Quando era pequena, com uns sete ou oito anos de idade, brincava com o meu primo P. de marido e mulher, no quarto grande dos meus pais e tudo fazíamos para ter filhinhos de quem cuidar

Nunca o conseguimos !

Um sentimento de vergonha assola-nos agora, sempre que nos encontramos, em ocasiões festivas e encontros familiares.

Tentamos evitar o olhar um do outro e trocamos palavras desajeitadas.

Não me atirem pedras se detetarem indecências, nas minhas histórias – nem tudo aconteceu comigo, com a minha família ou com os meus amigos, mas muitas coisas aconteceram.

Os factos brutos existem polidos pelo buril da imaginação.

Nem tudo é realidade, mas se acreditarem, sabem que os fantasmas existem, em alguns becos escuros e vielas pestilentas de cada vida.

Há que suportar ! Não se pode ficar ofendido pelo excesso de realidade.

Eu, prefiro escrever a tricotar camisolas de malha.

Nada acontece quando se tricota uma camisola de malha – o cérebro desconecta e congela. Faz bem à paz interior, dizem. Pois nunca se ouviu contar que alguém morreu a tricotar, sentado numa poltrona. Por isso se deve ser feliz a tricotar, embora…

Talvez aprenda ainda a tricotar uma camisola de malha, para o próximo inverno. Nada mais tenho para fazer.

Será de cor amarela como o sol – um sol bom e quente a cheirar a verão! Nunca é tarde para se aprender a tricotar uma camisola de malha !

Difícil é viver só e não ter nada para fazer!

Eu, todas as noites me deito e acordo com a solidão. E a solidão esmaga qualquer um.

É terrível só se ter um gato para conversar. O gato mia. Eu falo. O gato talvez entenda da minha solidão, mas eu, nada entendo da solidão do gato. O gato responde pelo nome. Saberá o gato sequer como me chamo?

Claro que há sempre a televisão  a TV e as suas elucubrações despudoradas o inefável frisson da eletrónica !

Melhor mesmo é aprender a tricotar uma camisola de malha !

Ser mulher é uma coisa soberba! só quem é mulher o pode saber.

Não vale a pena pensar em desperdiçar-me à toa aprendendo tricot, crochet ou culinária. Tudo é melhor do que ser uma estrábica da felicidade, tricotando camisola de malha, frente às torpitudes do ecrã de TV.

A menos que seja para assistir ao ‘Último tango em Paris’ e me excitar terrivelmente !

Ficar em casa, tricotando, vendo TV e comendo?

Não acontece nada, mas a vida não pode ser  só truculências e prazeres – há um tempo para tudo e chega-se muito depressa ao tempo em que já não há nada. Nem tricot !

Passam-se os dias, os meses, os anos. E assim se esboroa o tempo !

Por vezes, o tempo não passa. É tão sólido o tempo, que quase dá para cortar à faca, em pedaços que se desmancham na boca, como uma hóstia que não se pode mastigar.

É difícil a espera, suspensa no Tempo que não passa.

E depois, ninguém morre até que começam todos a morrer, um após outro, cronologicamente. A vida já nos foi boa até que vira ruim.

Viver tem dessas coisas! e todos vamos morrer um dia, fracassados e expiantes, no final do percurso da via crucis – ficamos a zeros !

O silêncio fica dono de tudo : do espaço e do tempo.

Estamos perdidos de qualquer forma. Não há escapatória !

O telefone há muito já não toca. Estou sozinha com o gato.

E quando telefono eu, o telefone chama, mas ninguém atende ou uma voz me diz : morreu ontem ou morreu há uma semana ou morreu há um mês…

Fica vazia a carruagem com o comboio ainda em marcha.

A grande questão é : saber aguentar !

Pois a coisa é assim mesmo ou não lhe teria chamado de via crucis. Não sou de exageros.

No fim do rolo que é a vida, fica-se de mãos a abanar, sem nada para fazer ou dizer. Fica-se sem assunto.

A quem ligar ?

Uma hipótese é ligar para o meu próprio número. Seria embaraçoso, no mínimo ! e quem me atenderia a chamada?

A melancolia vai-me matando aos poucos! não se dá bem com a alegria – essa fingida e travestida efémera vertigem de viver ! e se me descuido ainda morro prematuramente…

Fazer o tempo parar ? é somente uma questão  do relógio parar !

Mas como se pára um relógio ?

 

Que se dane ! Vou deitar-me e dormir ou não dormir, eis a questão, outros cem anos !