vendredi 2 avril 2021

TRÍPTICO

 

« La lune est éclatante de silence

Paul Éluard

 

 

A noite é uma possibilidade excepcional – a noite fechada de um verão escaldante, ainda mais!

Aguardo em silêncio.

Aos poucos, vou-me habituando ao escuro e, aos poucos, vou enxergando uma claridade, no silêncio da noite.

A lua é cheia.

Ao longe, oiço a beleza e o perigo do mar, ao qual já me quis atirar, sem roupa, para não mais voltar.

Sopra um vento de noroeste.

Imagino um farol e inicio uma viagem fora do tempo.

Preencho a ausência com o culto do Tédio. Que horas são aí onde vives, nessa ilha inalcançável ?

Fatalmente, iremos morrer um dia! talvez dentro de poucos meses, talvez sete anos – fora isto, não há certezas de nada, na encruzilhada do Grande Caminho.

E, de repente, oiço outra vez o mar :

a revoltosa rebentação do Atlântico enche-me os ouvidos e o seu cheiro salgado fecunda-me as narinas.

Esta é uma noite de lua cheia.

E a minha única ambição é voltar a fruir o proíbido, pois o proíbido, já se sabe, é sempre o melhor !

 

 

 

«Não há crime que não tenhamos cometido em pensamento»

Goëthe

 

 

 

Dêem-me de volta o Desejo – um fio de desejo que seja ! Essa mola da minha vida animalesca !

Sopra, no ar, uma transparência cálida que apaga toda a minha dor de viver na Ausência.

Sinto-me independente e soberana.

É uma sensação de profundo e secreto júbilo - como se fosse dona do meu próximo segundo de vida e de todos os que se lhe seguem.

O ar clareia. Começa a raiar o dia. Um dia bruto. Um dia diário. Um dia desolado. Um dia votado ao Tédio. Um dia de Ausência.

Os postes de iluminação não foram ainda apagados e projetam uma luz empalidecida.

O bocejo acontece.

A minha vida hodierna é tão somente esperar, apodrecendo.

A manhã ficará límpida e eu nem sei onde estive esta noite. Dêem-me algum tempo, um mínimo de tempo para me aclimatar.

Olho, em meu redor, e só vejo o mar muito salgado - o mar azul e, na sua ourela, as casas brancas dos pescadores. Imagino os peixes de olhos gordos e vítreos, em salmoura, dentro desse mar temperado.

E as nuvens, sobre o mar, são amarelas ou douradas ao menos.

Apetece-me agora tomar um banho de mar azul !

Eu ainda gosto de banhos de mar salgado – a mulher que sou, só deseja Alegria ! não se quer curvar defronte da morte que pode vir de visita, a qualquer momento.

 

 

À noite, derrama-se novamente o vasto silêncio, pelas ruas do casario branco despovoado.

Tento, em vão, disfarçar a opressão que me espreita, num silêncio tão grande quanto o desespero, quando penso no improvável dia de amanhã.

Como ultrapassar essa ansiedade latente que arrasta o corpo no seu rumor ? como fugir ao alcance desse silêncio, oco de palavras, insone e imóvel ?

É inútil tentar agora povoar esse vazio tenebroso do silêncio. Inútil pensar numa porta que abra, numa tábua do soalho que ranja, numa persiana que bata com o vento.

O silêncio continua vazio e sem promessa.

Há uma descontinuidade que não é mais do que a negação da vida e este silêncio não deixa marcas, nem provas ! quem ouve o silêncio, de noite, não sabe sequer dizer como o sentiu !

A noite desce.

As pedras do chão brilham, nas vielas e nos becos, já vazios, e apagam-se as luzes mais distantes.

Cai um silêncio, ainda mais fundo, nas casas brancas e ajeitam-se as folhas nas árvores, quando some a luz das lâmpadas dos candeeiros.

Ouvem-se alguns passos tardios ressoar nas pedras da calçada. Poucos.

A lua vai alta e o silêncio ainda maior aparece.

Pensa-se no dia que passou com as suas pequenas alegrias mansas e os seus  cansaços vários e indefiníveis.

As crianças adormecem. Fecham-se as últimas portas que dão para a rua. E instala-se o silêncio total, na escuridão. E os corpos deixam de lutar.

Entra-se, neste silêncio, como um fantasma invisível na escuridão, vivendo na orla da morte.

Sente-se mais premente a súbita ausência – uma ausência quase palpável, um torpor indecifrável !

A dor cessa de latejar.

Sou apenas um corpo, uma pessoa, uma mulher, uma atenção mergulhados no silêncio.  Podia bem ser uma pedra ou um pingo de chuva, não fosse o calor do estar ainda viva. Nada mais que isso, viva ! e apenas viva, de forma mansa e silenciosa.

Engoli, faz tempo, a loucura que me alucinava calmamente e mantenho-me, sem uma única palavra a dizer, – em mutismo, na vasta inconsciência do mundo.

Ainda sucumbo, amiúde, à melancolia dos fins de tardes tristes, sem nada que me conecte ao mundo. Mas o futuro é meu, enquanto eu viver calada !

 

 

 

«La chair est triste hélas, et j’ai lu tous les livres »

Stéphane Mallarmé

 

 

 

Escrevo por impulso.

Sinto, em mim, nascer a inspiração como água que fura as paredes e sucumbo à rebentação, na escuridão da grande noite sem lua.

Literatura ou lixo, isto que escrevo ? – pouco importa !

Há um enigma por descortinar e eu corro atrás e treino os meus olhos cegos, no esforço de o poder desvendar.

Serei, certamente, sujeita a juízos neste mundo cão – não me julgo totalmente boba. Sei de algumas verdades e de algumas realidades inventadas.

Quando era pequena, com uns sete ou oito anos de idade, brincava com o meu primo P. de marido e mulher, no quarto grande dos meus pais e tudo fazíamos para ter filhinhos de quem cuidar

Nunca o conseguimos !

Um sentimento de vergonha assola-nos agora, sempre que nos encontramos, em ocasiões festivas e encontros familiares.

Tentamos evitar o olhar um do outro e trocamos palavras desajeitadas.

Não me atirem pedras se detetarem indecências, nas minhas histórias – nem tudo aconteceu comigo, com a minha família ou com os meus amigos, mas muitas coisas aconteceram.

Os factos brutos existem polidos pelo buril da imaginação.

Nem tudo é realidade, mas se acreditarem, sabem que os fantasmas existem, em alguns becos escuros e vielas pestilentas de cada vida.

Há que suportar ! Não se pode ficar ofendido pelo excesso de realidade.

Eu, prefiro escrever a tricotar camisolas de malha.

Nada acontece quando se tricota uma camisola de malha – o cérebro desconecta e congela. Faz bem à paz interior, dizem. Pois nunca se ouviu contar que alguém morreu a tricotar, sentado numa poltrona. Por isso se deve ser feliz a tricotar, embora…

Talvez aprenda ainda a tricotar uma camisola de malha, para o próximo inverno. Nada mais tenho para fazer.

Será de cor amarela como o sol – um sol bom e quente a cheirar a verão! Nunca é tarde para se aprender a tricotar uma camisola de malha !

Difícil é viver só e não ter nada para fazer!

Eu, todas as noites me deito e acordo com a solidão. E a solidão esmaga qualquer um.

É terrível só se ter um gato para conversar. O gato mia. Eu falo. O gato talvez entenda da minha solidão, mas eu, nada entendo da solidão do gato. O gato responde pelo nome. Saberá o gato sequer como me chamo?

Claro que há sempre a televisão  a TV e as suas elucubrações despudoradas o inefável frisson da eletrónica !

Melhor mesmo é aprender a tricotar uma camisola de malha !

Ser mulher é uma coisa soberba! só quem é mulher o pode saber.

Não vale a pena pensar em desperdiçar-me à toa aprendendo tricot, crochet ou culinária. Tudo é melhor do que ser uma estrábica da felicidade, tricotando camisola de malha, frente às torpitudes do ecrã de TV.

A menos que seja para assistir ao ‘Último tango em Paris’ e me excitar terrivelmente !

Ficar em casa, tricotando, vendo TV e comendo?

Não acontece nada, mas a vida não pode ser  só truculências e prazeres – há um tempo para tudo e chega-se muito depressa ao tempo em que já não há nada. Nem tricot !

Passam-se os dias, os meses, os anos. E assim se esboroa o tempo !

Por vezes, o tempo não passa. É tão sólido o tempo, que quase dá para cortar à faca, em pedaços que se desmancham na boca, como uma hóstia que não se pode mastigar.

É difícil a espera, suspensa no Tempo que não passa.

E depois, ninguém morre até que começam todos a morrer, um após outro, cronologicamente. A vida já nos foi boa até que vira ruim.

Viver tem dessas coisas! e todos vamos morrer um dia, fracassados e expiantes, no final do percurso da via crucis – ficamos a zeros !

O silêncio fica dono de tudo : do espaço e do tempo.

Estamos perdidos de qualquer forma. Não há escapatória !

O telefone há muito já não toca. Estou sozinha com o gato.

E quando telefono eu, o telefone chama, mas ninguém atende ou uma voz me diz : morreu ontem ou morreu há uma semana ou morreu há um mês…

Fica vazia a carruagem com o comboio ainda em marcha.

A grande questão é : saber aguentar !

Pois a coisa é assim mesmo ou não lhe teria chamado de via crucis. Não sou de exageros.

No fim do rolo que é a vida, fica-se de mãos a abanar, sem nada para fazer ou dizer. Fica-se sem assunto.

A quem ligar ?

Uma hipótese é ligar para o meu próprio número. Seria embaraçoso, no mínimo ! e quem me atenderia a chamada?

A melancolia vai-me matando aos poucos! não se dá bem com a alegria – essa fingida e travestida efémera vertigem de viver ! e se me descuido ainda morro prematuramente…

Fazer o tempo parar ? é somente uma questão  do relógio parar !

Mas como se pára um relógio ?

 

Que se dane ! Vou deitar-me e dormir ou não dormir, eis a questão, outros cem anos !

 

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