vendredi 25 septembre 2026

Voyeurismo

“Sou uma pessoa insegura, indecisa, sem rumo na vida, sem leme para me guiar.
Na verdade, não sei o que fazer comigo.” Clarice Lispector,  Correspondências



    Houve uma época em que eras maligno e demoníaco, e, eu, frágil e inerme, como um  pequeno animal, deixado à chuva; tão vulnerável quanto uma calopsita, capturada e presa numa gaiola, pequena demais para as forças das suas asas.
   Não usaste armadilhas, nem redes ou esparrelas para me apanhares, nem me colocaste uma anilha inamovível, “fui eu quem vim comer migalhas às tuas mãos”.
   Fingiste ter-me encontrado ferida e desorientada, num dia de temporal, entre as folhas mortas arrastadas pelo vento, no passeio de uma rua da grande cidade.
   Não desejavas magoar-me ou matar-me, oh! não, apenas querias manter-me em cativeiro, para me exibires.
   Aos teus olhos, eu não nascera para voar e o meu estado selvagem tinha de ser domado; era demasiado inquieta e arisca para me tornar num pet social e dócil, destinado a ser admirado.
   Foi então que comecei a andar, de um lado para o outro, a bicar, obsessivamente, as barras da gaiola e a arrancar as minhas próprias penas.
   Não tinha permissão para voar e, sem vacilar, mantiveste-me refreada, e engaiolada. Estava, bon gré, mal gré, sob a tua custódia.
   Os meus comportamentos tornaram-se compulsivos e destrutivos; disso me avisavas, com indiferença na voz e frieza no olhar.
   Comigo, te preocupavas, em esparsos dias, e me esquentavas e alindavas antes da exibição, deixando crer que já havia nascido em cativeiro.
   Partilhavas, com outros, as fotos do teu bicho de estimação, de cores vibrantes e penas sensualmente arrepiadas.
   Uma vez por outra, casualmente, me mostravas, despida de enfeites e solta. Eram momentos intensos, mas fugazes. Com um gesto impetuoso, cancelavas o show, sem direito à grand finale.
   Eu figurava como uma estátua de mármore. O meu rosto era uma máscara lisa à superfície, que disfarçava um leve curto circuito interno. É sabido que o constrangimento se envergonha de tudo, mas ninguém se quer acobardar. You have to walk the talk.
   Naqueles breves instantes, o meu ligeiro estremecimento, decerto, tocava no nervo fino da tua audácia espicaçada, sem que eu jamais soubesse se havias, de forma tão fulgurante, saciado as tuas fantasias.
   Na época, eu não tinha pudores de donzela ofendida, nem Dulcineia, nem Altisidora. Com o passar dos dias, o cativeiro tornou-se numa gaiola de oiro, uma prisão luxuosa, da qual já nem pensava em evadir-me. Vestia-me, andava, sorria e exibia-me para te agradar a ti, e a ti só.
   Não precisavas da minha mente, apenas de um corpo vulgar e (con) sensual, drapeado de roupas ousadas ou de roupa nenhuma - um privilégio só teu que, ufanamente, exibias como um troféu. Diminuía, deliberadamente, as minhas próprias conquistas e ainda assim, sentias prejuízo. Não te destinavas a explorar as abysses  dos meus estados de alma, nem as profundezas sombrias dos meus pensamentos.
   Exigias-me submissa, calada e imerecida. Assim diluías a ameaça que eu te era. E ao mesmo tempo que me querias, também querias outras, numa versão minha, só que mais arrojada.
   Mostravas-me as outras, enquanto, me mostravas a outros.
   It was hard to resist their caressing hands, young bodies and tight pussies.
   O ciúme, esse voyeur obcecado e dissimulado, estava sempre à espreita. 
   Era moeda corrente nas nossas transações de desejo e prazer. Só que tu foste sempre mais longe - eras o zeloso carcereiro.
   

  
   
  
   
  
   

 

jeudi 6 août 2026

Sacudo as almofadas
e a poeira invisível dos dias.
No recolhimento da casa,
busco o silêncio e um pouso feliz.

mardi 4 août 2026

Vita in motu

A vida é só uma e
custa a perceber.

Longe vão os dias longos da infância,
os jogos infinitos e a alegria.

Uma noite, contámos as estrelas.
Os olhos piscavam. Vimos que eram muitas. Fomos dormir. Éramos crianças um pouco tontas.

Longe vão já os dias em que sarávamos as feridas dos joelhos esfolados e dos corações sufocados.
Éramos crianças.

Longe já vão os dias em que desconhecíamos os medos que afligiam os adultos. Eles
pretensamente, tomavam conta dos nossos.
Talvez o papão e o lobo mau servissem esse propósito.

A vida é só uma e é curta e 
custa a perceber.

Longe vão os dias... 

E é quando pensas ter percebido alguma coisa, que te fecham os olhos e te enterram num pedaço de lama, à beira mar.
Se tiveres sorte.

dimanche 2 août 2026

ODISSEU

 o amor

-é só mais uma mentira sussurada ao ouvido da noite.


a tua língua 

-essa língua de oiro

e a cama, essa península isolada onde o orgasmo funde dois corpos suados

dimanche 8 mars 2026

Para onde foram os sonhos
da mulher velha, que preferia 
a carícia do ar fresco do monte
à tepidez bafienta dos salões mundanos?
A mulher que voltou ao redil,
com o coração cansado e a alma só e tormentada, padece, agora, em silêncio. 
Ao anoitecer, baixa a luz trémula.
Já ninguém lhe cativa o olhar.


Sacudo o cansaço  
e as almofadas,
perdi o sono feliz!

dimanche 25 janvier 2026

Check up

La Vie, cette salope innomable, m'a rouée de coups, m'a brisé les os et fracassé le crâne.
La malfaisante m'a soufflée dans un gouffre noir, avide comme la gorge redoutable d'une Gorgone.
Cette pute m'a happée, rongée, broyée, presque dévorée. Un anéantissement aussi fascinant, qu'effrayant.
J'ai sombré dans les abysses de son étreinte. J'ai échoué sur la grève, déchiquetée; rendue à la vie par un écumeur de plage.
Je me suis raboutée à tour de bras.
J'ai couru par monts et par vaux. J'ai gravi des montagnes. On m'a aperçue au bord de tous les précipices. Je suis tombée dans chaque ravine.
J'ai trébuché sur les cailloux. J'ai voltigé dans les airs. J'ai fait du sur place. 
Je me suis étourdie. J'ai défié les dieux et les hommes. J'ai encaissé des coups et j'ai rendu la pareille.
Je me suis ébranlée. J'ai essuyé mes larmes déjà sèches et j'ai mouché ma morve.
Je me suis égarée, et je me suis raccordée.
J'ai aimé de tout mon soûl, puis j'ai oublié ma soif.
J'ai conquis, j'ai perdu. J'ai abandonné le ring.
Mes défaites ont été cuisantes. J'ai reconquis et perdu encore.
Platement battue, mais couverte d'honorables cicatrices, j'ai gagné une bataille.
J'ai eu peur. Mon sang a glacé dans mes veines. J'ai eu froid.
J'ai été  tantôt asservie, tantôt affranchie, à la fois chienne et esclave. J'ai été prisonnière, puis geôlière.
Ô Vie, tu ne m'as pas éventrée à ta guise!
Je ne suis pas une catin servile!
Je suis la vieille survivante, au chevet de la jeune fille que je fus, de la jeune femme que j'ai été et de l'enfant un peu farouche, perdue et oubliée.
Ô vieille traînée gateuse! Tu ne m'as pas encore eue!
Aujourd'hui, ne t'en déplaise, je te jette à la gueule ces vers de Violeta Parra, comme une claque sur ta face hideuse!
" Gracias a la vida que me ha dado tanto [...]"