“Sou uma pessoa insegura, indecisa, sem rumo na vida, sem leme para me guiar.
Na verdade, não sei o que fazer comigo.” Clarice Lispector, Correspondências
Houve uma época em que eras maligno e demoníaco, e, eu, frágil e inerme, como um pequeno animal, deixado à chuva; tão vulnerável quanto uma calopsita, capturada e presa numa gaiola, pequena demais para as forças das suas asas.
Não usaste armadilhas, nem redes ou esparrelas para me apanhares, nem me colocaste uma anilha inamovível, “fui eu quem vim comer migalhas às tuas mãos”.
Fingiste ter-me encontrado ferida e desorientada, num dia de temporal, entre as folhas mortas arrastadas pelo vento, no passeio de uma rua da grande cidade.
Não desejavas magoar-me ou matar-me, oh! não, apenas querias manter-me em cativeiro, para me exibires.
Aos teus olhos, eu não nascera para voar e o meu estado selvagem tinha de ser domado; era demasiado inquieta e arisca para me tornar num pet social e dócil, destinado a ser admirado.
Foi então que comecei a andar, de um lado para o outro, a bicar, obsessivamente, as barras da gaiola e a arrancar as minhas próprias penas.
Não tinha permissão para voar e, sem vacilar, mantiveste-me refreada, e engaiolada. Estava, bon gré, mal gré, sob a tua custódia.
Os meus comportamentos tornaram-se compulsivos e destrutivos; disso me avisavas, com indiferença na voz e frieza no olhar.
Comigo, te preocupavas, em esparsos dias, e me esquentavas e alindavas antes da exibição, deixando crer que já havia nascido em cativeiro.
Partilhavas, com outros, as fotos do teu bicho de estimação, de cores vibrantes e penas sensualmente arrepiadas.
Uma vez por outra, casualmente, me mostravas, despida de enfeites e solta. Eram momentos intensos, mas fugazes. Com um gesto impetuoso, cancelavas o show, sem direito à grand finale.
Eu figurava como uma estátua de mármore. O meu rosto era uma máscara lisa à superfície, que disfarçava um leve curto circuito interno. É sabido que o constrangimento se envergonha de tudo, mas ninguém se quer acobardar. You have to walk the talk.
Naqueles breves instantes, o meu ligeiro estremecimento, decerto, tocava no nervo fino da tua audácia espicaçada, sem que eu jamais soubesse se havias, de forma tão fulgurante, saciado as tuas fantasias.
Na época, eu não tinha pudores de donzela ofendida, nem Dulcineia, nem Altisidora. Com o passar dos dias, o cativeiro tornou-se numa gaiola de oiro, uma prisão luxuosa, da qual já nem pensava em evadir-me. Vestia-me, andava, sorria e exibia-me para te agradar a ti, e a ti só.
Não precisavas da minha mente, apenas de um corpo vulgar e (con) sensual, drapeado de roupas ousadas ou de roupa nenhuma - um privilégio só teu que, ufanamente, exibias como um troféu. Diminuía, deliberadamente, as minhas próprias conquistas e ainda assim, sentias prejuízo. Não te destinavas a explorar as abysses dos meus estados de alma, nem as profundezas sombrias dos meus pensamentos.
Exigias-me submissa, calada e imerecida. Assim diluías a ameaça que eu te era. E ao mesmo tempo que me querias, também querias outras, numa versão minha, só que mais arrojada.
Mostravas-me as outras, enquanto, me mostravas a outros.
It was hard to resist their caressing hands, young bodies and tight pussies.
O ciúme, esse voyeur obcecado e dissimulado, estava sempre à espreita.
Era moeda corrente nas nossas transações de desejo e prazer. Só que tu foste sempre mais longe - eras o zeloso carcereiro.