vendredi 14 mai 2021

 

Ao fim de tantos meses sem sair de casa, e de tantos dias arrastados pela casa e passados, maioritariamente, dormitando no sofá ou na cama, que tinha o hábito de deixar sempre desfeita, buscava agora o ar livre. Até a sua pele tinha adquirido um cheiro a mofo, indefinível e forte. Tinha previsto dar um longo passeio, apesar do medo de se cansar e de não conseguir voltar a casa.

Decidida, subia o morro, em busca da represa, onde volumes de água eram contidos, aprisionados por pedras de granito e ladeados de tufos de ervas.

Subia o acentuado declive e, ao longe, avistava apenas uma linha de terra ligada a um céu luminoso. As ervas altas agitavam-se ao sopro zangado do vento. A represa gemia sem interrupção.

Sentou-se sobre uma pedra ardente de sol. Tinha a sensação de que passara toda a sua vida sentada naquela pedra.

Um indizível bem-estar se apoderava dos seus membros- era algo sem profundidade, pois à volta dela só existiam ar e silêncio.

Fechava os olhos e quando os reabria as coisas reemergiam, lentamente. A água da represa rumorejava.

Naquele momento, era alegre e luminosa. Sorria para si mesma. Esgotada de forças, sentia-se pequena no topo daquele morro.

O seu coração ainda batia de cansaço e concordava com tudo. Com o final da tarde, com o vento fresco, com o seu medo de criança, com os raios de luz amortecidos resvalando pela encosta da colina, com o céu enchendo-se de nuvens, com a vaguidão em que flutuava o seu corpo.

Voltara do passeio numa quase noite.

Abriu a porta da casa que herdara de sua avó, na aldeia onde nascera. A sala tinha um ambiente frio e abafado – quase opressivo. Tocou ao de leve, com a ponta dos dedos, as pétalas das flores quase murchas, eretas numa jarra, no centro da mesa.

Sentia-se a entristecer. Ficara absorta e sem pensamentos. Não tinha vontade de se mover.

No seu quarto de dormir, sobre a cabeceira da cama pendia ainda um cristo na cruz, de feridas tristes. Não tivera coragem de o arrancar do sítio que a sua avó, excessivamente crente, havia escolhido para ele. Honrava assim a memória dela.

Tirou o chapéu que usava, nas suas deambulações, para se proteger do sol ardente. A cabeça era nua e pobre, os cabelos ralos e sem vida. Olhou-se ao espelho da cómoda : para onde fora o seu poder sedutor de outrora ?

Mas algo ali estava – pensava, obstinada, ainda que quase desmaiado, lucilando num rosto sério e ofendido. Havia sido amada por todos, mas poucos tinha amado.

Um sorriso parado iluminava o seu rosto de antiga menina e pairava entre a cómoda e a cama, o ar e o seu próprio corpo flutuando em busca de algo – tão indecifrável era este silêncio ensurdecedor.

Não esquecer, pensava ela , observando tudo em seu redor, como se fosse partir e devesse levar consigo a memória de todos os instantes que ali vivera. Não esquecer.

Sentia-se à beira de uma revelação. Tinha de livrar-se de alguma coisa, mas não saberia dizer de quê. Estava impotente frente à voragem impiedosa. A sua fragilidade era bem visível em todos os pontos do seu corpo. Vivia há muito sem gosto, nem força, numa impaciência turva. Chegara à última etapa da degradação.

A intransponível impressão que tinha da sua existência já longa é que nada de essencial fora atingido com o seu amor. Enterneceu-se então na sua solidão quase ao ponto de chorar.

Ela fora linda, mutável, fraca, inteligente, bruta, versátil, egoísta.

A luz apagara-se – qual a importância de continuar a ser Vera ?

A pele crestada e enrugada, a vista usada, até a lâmpada do quarto diminuía de força. Sem prazer, era como vivia agora. E o que fazer em seguida ?

Foi tomada de vertigens e, de repente, sentiu-se perigosamente gelada e intangível. Esperava. E os seus olhos turvos e aflitos começavam a pensar noutra coisa. Sentia a sua infelicidade a crescer a cada instante. E uma angústia escura e opaca apoderava-se dela e engrossava desesperadamente como um mar encapelado. Nada de essencial fora atingido com o seu amor.

As coisas fugiam dela brilhando à distância. As feridas nunca haviam cicatrizado totalmente.

O amor fora temporário como a chuva que não pode durar eternamente. Ninguém a fizera feliz ou fizera ?

O seu corpo era pesado de cansaço e de tristeza. Nada restava da sua exuberante feminilidade. Numa cólera mudamente violenta, rebelava-se contra o odioso irremediável.

Oh, a selvagem tristeza da Memória !

Tudo dentro dela se confundia em sombras difusas e sinuosas. Permanecia absorta, fitando insistentemente a sua imagem no espelho. Entrara num estranho sono do qual parecia impossível ser acordada.

Evolava-se daqueles caminhos furtados. O seu desespero ultrapassava todas as amarguras da vida. Livrara-se misteriosamente de tudo e de todos, do próprio amor.

Regressava à calma interior. Permanecia  especada, sem ardor, nem alegria. Reabriu os olhos por um instante cerrados e viu-se, o corpo fechado dentro de si-própria, mistificado e flutuante. Livre !

Em toda a parte, ele poderia continuar a olhar para a penumbra. Havia tempo ! A noite aconteceria. Em breve desmancharia os lençóis da cama e as folhas das árvores estremeceriam, vividas, nas trevas.

Vera dissolver-se-ia e mergulharia na própria matéria dissolvida e na líquida obscuridade do quarto, como um peixe volteando, serenamente, a cauda resplandecente, num mar grosso e desmanchado.

Com um bater de pálpebras, Vera mudava, dramaticamente, o plano da sua existência interior. Uma criança magra e pálida erguia-se, no fundo da sua visão, mas logo desaparecia no seu próprio mar – era apenas uma forma no escuro, feita do próprio escuro. Uma curta visão no meio de pequenas ondas sucessivas.

O sono cedo a encerraria como uma mancha negra.

dimanche 9 mai 2021


 

 

Weil sich alles verändert hat.

 

Tinha mergulhado, definitivamente, na vileza da velhice.

Olhava-se ao espelho, mal acordava, o rosto pálido e cheio de pregas abjetas, os olhos com as pálpebras descaídas, os lábios descarnados e uma boca sem expressão. Os cabelos ralos e embranquecidos.

Deixara, há muito, de se agradar. Ficava especada frente ao espelho, trémula de asco. Como era feia aquela imagem de si. Ria então, com uma gargalhada falsa para se animar.

Existia agora numa vida secreta. O seu coração cansado só já pulsava na sombra. Lento e vermelho, sem alegria, nem pavor em demasia.

Durante o dia, era acometida por súbitas exaustões que a forçavam a deitar-se e a fechar, por instantes, mais ou menos dilatados, os olhos, despindo-se de toda e qualquer inquietação, esquecendo o medo turvo.

Os músculos, finalmente mansos e contentes, mergulhavam num torpor feito de sensações túrgidas e lentas. Parecia-lhe, ao emergir desses apagões, que um tempo incontável decorrera e achava-se, por instantes, muito longínqua da sua existência terrena. Quase teria preferido conservar-se inanimada, mas quando abria os olhos, achava-se, invariavelmente, sobre a cama, no quarto vazio e frio.

Um profundo silêncio envolvia a casa.

Algures, o vento sussurrava pelos cantos. Nada sucedia no casarão vasto e nu. Espiava, diariamente, a sua própria degradação a par do que sucedia em seu redor.

As tardes eram longas e tensas e tudo lhe parecia tão imaterial e fugaz a pontos de já não conseguir deter-se em nenhum pensamento. O que de precioso existira, na sua vida, fora evanescente e era agora indistinto.

De ora em diante, só lhe restava concordar com o inevitável – a perda e a queda. Esse era o movimento infinito da vida.

A matéria de que era feita corrompera-se devagar e irremediavelmente, mas também se aniquilara muito do sofrimento – vivia num desânimo sem dor. A decadência era irreprimível.

O vento incessante intercetava e desmanchava brutalmente os seus pensamentos. Esgotara as palavras de que se alimentava e não encontrava outras.

Movia-se com cuidado. Olhava o ar silencioso do quarto. Envelhecera ali palidamente. A sua vida era a soma de infinitos instantes imóveis e estéreis.

Tinha a consciência desse tempo atrás de si e a noção desassossegada de algo que não poderia jamais tocar, que já não lhe pertencia, mas a que ainda se prendia pela incapacidade de criar outra vida e um novo tempo que fizessem sentido.

Via a si mesma, como de longe, uma forma escura e desaprumada a curvar-se em direção ao chão. Com um suspiro impaciente e furioso, imobilizou-se no quarto, frente ao espelho.

Nos campos, à volta do casarão, a neblina das manhãs reforçava o seu sentimento de solidão profunda. A terra era fria e indiferente.

Pensava, com inquietação, no rigor do inverno próximo e previa um novo e mais fundo desespero em permanecer presa no interior da casa. Com firmeza, resolvia então cerrar o coração. Não havia quem a salvasse. Outros infindáveis e fugazes momentos se sucederiam e morreriam. Nada aconteceria. Permaneceria ali, rodeada pelo silêncio impalpável, sombrio e húmido.

O seu rosto inexpressivo, quieto e mudo, pairava à espera. Lá estava ela. O seu corpo já não tinha sede, nem fome. Ainda ontem ria de prazer. Ainda ontem se estendia à sua frente o futuro.

O seu movimento de vida estancara como um relógio cuja pilha se gastou. Lá estava ela pois.

Cessara para sempre o perigo de viver. Agora era esperar…

 

jeudi 6 mai 2021

The Skyline, 2020


 

 Todas as manhãs, faz cerca de oito meses, me levanto à mesma hora para uma sessão de fisioterapia diária. A clínica fica perto de uma escola. Aí estaciono o carro. Devido aos sucessivos confinamentos, raramente ali vi crianças. 

Hoje, recebi de uma delas o pedido mais inusitado que algum dia me foi endereçado. Como me dirigia ao carro, vi três meninas agarradas ao gradeamento, observando um cão grande e castanho. O cão chegou-se perto de mim fairando as minhas calças. De repente,  ouço uma voz infantil.

- Senhora, pode fazer-lhe uma festinha por mim?

Ainda hesitei uma fração de segundo, e disse à menina que eu habitualmente tenho medo de cães, mas o cão levantou a cabeça, bem junto às minhas pernas, como que a reinvindicar essa carícia! 

Avancei a mão e fiz-lhe a festinha na testa um pouco a medo e exclamei:

- Olha afinal o cão é muito fofinho!

E ouço a voz da criança:

- É uma menina! Não é um cão, é uma cadela!

Só então reparei nas suas numerosa tetas! 

Sorri amplamente por baixo da máscara. Eu que normalmente não sou muito afável nem com crianças, nem com cães, fiquei rendida. Esta garota encheu-me as medidas. Fiquei com fé na humanidade e confiança  nas cadelas. Abençoadas!

mardi 4 mai 2021


 

 

Sofia sentia sempre um enorme prazer em esconder o corpo, sob os lençóis lavados, ao fim do dia.

Era um longo prazer algo inexplicável, vivo e misterioso. Uma aconchegante riqueza descomunicando com o vazio da sua vida, o silêncio triste em volta dela e a sombra grave do mundo.

Lá fora, todo o dia, o vento soprara, desnudando paredes, vagando pelos ramos estéreis das árvores da Herdade. Todo o dia, sentira uma náusea difusa no corpo tenso. Talvez fosse o cheiro da casa agora vazia – os ângulos secos, os pontos neutros da casa que acumulavam poeira e bolores. Sim talvez fosse isso ou o estar ela vivendo vertiginosamente à beira das coisas, numa mansidão desoladora e exasperante. Melhor seria não aprofundar, nem olhar. Apenas prestar uma atenção vaga, adormecendo os ouvidos  e cerrando os olhos. Mas logo acontecia a manhã do dia seguinte.

Sofia erguia-se muito cedo, desde sempre fora uma madrugadora, ainda que nada tivesse para fazer. Enfiava o corpo num qualquer casual outfit, empurrava as portadas das janelas do quarto e mergulhava de cabeça na luz do novo dia. Custava-lhe muito enfrentar aquela claridade.

Os campos estendiam-se claros e sem manchas a perder de vista, enquanto ela se movia lentamente, ainda meio insone.

As árvores, ao longo do caminho que dava acesso à Herdade, a partir da estrada principal, emergiam também elas, de raízes ocultas, fustigadas pelo vento incessante.

Tudo no jardim escorria orvalho. Tudo flutuava pálida e quietamente. Tudo jazia ainda sem vida. Daí a instantes, um sol mais esbranquiçado tornaria tudo mais nítido. A névoa dispersaria e o jardim, o casarão surgiriam como um oásis no meio da dolorosa secura da Planície.

A vida do dia começava perplexa. Sofia sentia o coração a bater, num alvoroço, atravessado por um desejo impossível. Continuava à janela perscrutando e escutando o espaço em frente dos seus olhos como quem descobre uma paisagem pela primeira vez. Hesitava entre o desapontamento e um encanto difícil – afinal  ela nunca saíra daquele lugar verdadeiramente.

Uma certa alegria pairava no ar. O verão anunciava-se com alguma antecipação e penetrava pelo vazio claro da janela.

Sofia já se sentira bem viva naquele lugar. Com pequenas resoluções  tomadas a cada minuto. Já fora colérica e opinativa também. Já fora mulher. Ali vivera com os pais, ali casara e dera à luz. E depois, sucedera o que sempre sucede – uma perda lenta. Seu marido morrera num acidente de viação ainda os seus dois filhos eram crianças. Tornados homens, haviam deixado a Herdade para se instalarem na Cidade, onde exerciam agora as suas profissões.

Sofia ficara ao abandono, como os móveis empoeirados do casarão. O seu corpo vivia agora separado dos outros corpos todos.

Preguiçosa, cansada e vaga, há muito Sofia deixara de abranger com o olhar a sua própria vida.

Do tempo de solteira guardava fiapos de memórias – uma época sem homem e sem filhos remotamente gloriosa, mergulhada num silêncio absoluto.

Poucos fios a ligavam agora ao mundo. Chocava amiúde com as coisas. Tudo lhe parecia irremediável – a perda, a velhice, a exclusão. Mas também já não sentia necessidade de ligar-se em demasia ao passado. Essas memórias causavam-lhe dor. Seria melhor doravante viver sem um pensamento, um desejo ou uma lembrança.

Os seus dias na Herdade eram largos e vazios como o casarão. Já não recebia visitas. Só duas vizinhas mais velhas a visitavam de tempos a tempos, à hora do chá.

Todos os anos, uma prima do Norte vinha passar umas semanas, no final do Verão, por não suportar o calor sufocante da Planície.

Quando Celeste partia, a vida no casarão retomava as suas rotinas e era aspirada novamente pelo vórtice sombrio do tempo e Sofia preparava-se mentalmente para enfrentar mais um longo e frio Inverno que não acabaria nunca.

Retomava a sua solidão sem tristeza em demasia. Já estava avezada àquela vida desde que enviuvara.

Os filhos também a visitavam, mas os seus afazeres profissionais na Cidade não lhes deixavam muito tempo livre e nunca permaneciam, na Herdade, mais do que dois ou três dias.

A sofia bastava-lhe agora apenas viver vagarosamente. Viver numa lentidão trôpega.

Por vezes, antes de se deitar, ainda espiava o céu, as estrelas ou caminhava um pouco em torno do casarão, respirando a claridade do ar à tardinha.

Nessas ocasiões, fitava o campo em seu redor e mergulhava em pensamentos íntimos rapidamente afastados. Era tão rápida a Vida. Fechava os olhos e quase sentia a maresia vinda da extensa Planície. As plantas secas e cobertas de poeira do caminho, os campos de girassóis a perder de vista, os pássaros aquietados nos ramos das árvores. As corujas piando. O seu coração batia então mais depressa. Sentia-se livre e leve como se caminhasse ao longo da praia, à beira-mar.

A sua vida era minuciosa e vaga, repleta de gestos rotineiros e mecânicos, rasa como o vestígio arruinado de outra vida e só lhe restava seguir cautelosamente vivendo e esperar na manhã clara pelo final da tarde.

Passeava devagar, prestando atenção aos seus passos cambaleantes e ao silêncio. Olhava para os próprios pés muito trôpegos, para uma pedra em que tropeçara ou para um pássaro e depois regressava lentamente ao casarão e abandonava o corpo na cama, entre os providenciais lençóis frescos de linho antigo, já sem a menor força, anulando-se sem esforço após a toma dos comprimidos para dormir.

O seu coração esfriava paulatinamente e acordava, na manhã seguinte, desapontada e seca, cambaleante em pequenos passos até se conseguir voltar a erguer erecta.

O ar já se tornava húmido. A chuva caía sem cessar.

Chegariam depressa os meses em que ficaria mais sozinha, apenas olhando a chuva. Esses dias eram urdidos de uma tristeza perfeita – chuva e frio.

E num fechar de olhos mais um final de ano se aproximava. Talvez os seus filhos a viessem visitar, com as suas namoradas.

Isso decerto lhe traria alegria.